A fotógrafa oficial da Jamaica House e produtora de eventos Elza Cohen conheceu o destino nas Olimpíadas do Rio por um ângulo privilegiado. Nesta entrevista exclusiva Cohen fala sobre o enorme sucesso da casa que tomou o Rio com a Positive Vibration e como a cena reggae no Brasil pode se renovar.

Conte um pouco da sua trajetória profissional

Comecei oficialmente na fotografia quando fui morar em São Paulo em 2008 (eu morava no RJ). Eu me senti muito inspirada com a cidade! Todos os dias eu ia pra rua em busca de capturar imagens interessantes (street style, abstratos, retratos…) amo street photography! Depois comecei a clicar shows das bandas, festas com djs e vjs, cosplays e ensaios conceituais… A partir daí me joguei, participando de exposições coletivas de fotografia contemporânea, workshops no Sesc e no MIS, still pra cinema e publicidade, colaborações com a Jamaica, India e Japão, fotografia pra identidade visual de artistas. Mas minha trajetória profissional no geral é bem complexa. Comecei no mundo da moda, depois fui para a música como idealizadora e realizadora dos meus projetos autorais efestivais para promover novos artistas. Em 94 criei o festival Superdemo no RJ. Depois criei a festa Zoeira HipHop que colocou a cultura hiphop carioca no mapa do Brasil e do mundo com uma coletânea na revista Trip. Fui chamada pra fazer diversas colaborações nacionais internacionais em revistas, festivais, gravadoras, MTV, consultorias pra novos artistas… colaborei muito com a jornalista venezuelana Yndiana Montes para o Aruba e o Caribe e depois Trinidad e Tobago e Jamaica.

E depois de tantas experiências, como foi trabalhar na Jamaica House como fotógrafa?

Eu já tinha trabalhado para a Jamaica através da Natalia Lopez da Finn Partners (RP do destino) para o Tourism Trade em São Paulo, por recomendação da minha amiga Yndiana Montes. Foi durante a visita do chairman do Jamaica Tourism Board (JTB), John Lynch. Mas nesta segunda oportunidade, foi muito emocionante trabalhar na Jamaica House! A Jamaica é colorida e cheia de possibilidades de imagens e os jamaicanos são super simpáticos! Tive liberdade e bom suporte. Conheci pessoalmente a Natalia, que me contratou para fazer toda a cobertura. Eu montei uma equipe, cuidei da cobertura fotográfica e contratei meu amigo e colaborador Rabú Gonzales para a parte dos vídeos. Adorei a experiência, foi muito enriquecedora e trabalhar com os jamaicanos e a Natalia cara a cara fortaleceu muito mais a relação profissional. Acredito que o vínculo profissional ficou mais firme. A Natalia é uma profissional séria e delicada, foi um prazer trabalhar com ela e sua equipe.

Você já foi à Jamaica? Como foi capturar o Brasil pelos olhos da Jamaica e vice-versa durante o evento? Qual a maior impressão que o evento deixou em você em termos de energia de público e expectativas quanto às Olimpíadas e ao Brasil?

Ainda não fui à Jamaica, mas tenho planos de conhecer a ilha e registrar uma série em foto e vídeo que idealizei há anos intitulada “MarleyGraphia”. Queria capturar imagens de lugares onde Marley morou (Kinsgton / Trenchtown…), retratos de pessoas da família e amigos ou filhos dos amigos, o movimento rastafári e também o antigo local onde funcionava a Tuff Gong Records (atualmente é o Museu Bob Marley). Enfim, reunir memórias de Marley através das pessoas e dos lugares na Jamaica…

Já capturar o Brasil pelos olhos da Jamaica foi muito fácil para mim, porque tenho uma relação intima com a ilha desde sempre por causa do reggae que adoro! A impressão que eu tive foi que o Brasil e a Jamaica são irmãos com muito em comum! Aconteceu uma conexão muito verdadeira de ambos, troca de energia do público, muita alegria e descontração… e justamente por isso que a Jamaica House foi a casa mais disputada das Olimpíadas. Antes mesmo de abrir, a casa já estava lotada. Foram 8 dias de Positive Vibration!

Ky-Mani Marley já era uma atração esperada, devido o que a família Marley evoca no Brasil e no mundo. Como foi pra o público renovar essa imagem do reggae com artistas como Nature e Luciano?

A família Marley é sempre esperada no Brasil e já tocaram outras vezes por aqui. Eu mesma já trabalhei com o ky-Mani em um show em São Paulo em 2011 como fotógrafa. Mas Nature, I-Octane e Luciano, acredito, foi a primeira vez deles no Brasil. Luciano foi muito aguardado por ser um ícone da segunda geração do reggae roots e devoto do rastafári. Já I-Octane e Nature agradaram bastante, porque o dancehall faz muito sucesso no Brasil. E teve também a participação do Digital Dubs (um coletivo carioca inspirado na música jamaicana) que foi muito bom! Eles são super queridos por aqui.

Na sua opinião, qual o legado que a Jamaica deixou no Brasil? Acredita que houve um saldo positivo para as pessoas olharem o turismo e a cultura da ilha de forma diferente? E qual o legado você acha que o Brasil deixou para os jamaicanos após uma quinzena intensa de Jamaica House no Rio?

A Jamaica deixou seu planejamento, otimismo, trabalho, humildade, política esportiva e vitória. E com certeza, o destino ficou ainda mais visível após a ampla divulgação da ilha durante as olimpíadas na Jamaica House. Acredito que Brasil e Jamaica estreitaram mais suas relações econômicas, culturais e turísticas. Isso seguramente refletirá no turismo causando maior interesse do brasileiro pela Ilha e vice-versa. Já o Brasil refletiu esperança, confiança, infraestrutura e muita receptividade.

Quais foram os momentos mais marcantes que suas lentes captaram na Jamaica House?

A popularidade e carisma do diretor do JTB Paul Pennicook e do Primeiro Ministro. Gente, todo mundo pedia para fazer selfie com ele…! Fiquei impressionada porque enquanto aqui no Brasil estamos vivendo um momento caótico de total desconfiança nos políticos, a Jamaica tem um que pessoas que são ídolos! E a vibração do público cada vez que o nome de Usain Bolt era pronunciado, muitas selfies ao lado da estátua dele…
Me senti muito a vontade trabalhando na Jamaica House,  para mim foi como trabalhar em casa, ou seja, no meu país, porque tenho uma ligação muito forte com a Jamaica. Acho que em outras vidas fui Jamaicana (risos) Me identifico profundamente com sua cultura, a música, enfim, tudo me inspira.
E também foi muito agradável trabalhar com os jamaicanos, eles  foram acessíveis e simpáticos, desde o Primeiro Ministro Andrew Holness,  Olivia Grange (Ministra da Cultura, Gênero, Entretenimento e Esportes), Paul Pennicook (Diretor de Turismo da Jamaica), Edmund Bartlett (Ministro do Turismo, ) e Jason Hall (Diretor Adjunto do Escritório de Turismo da Jamaica), o  idealizador e responsável pela iniciativa Jamaica House.

No seu trabalho você se identifica com fotografia, produção cultural, entre outras coisas. Conte um pouco sobre os artistas que mais te influenciaram e qual o impacto que a filosofia do reggae tem na sua vida.

Atualmente eu trabalho exclusivamente como fotógrafa, na música e eventualmente desenvolvo alguns eventos especiais. Mas sempre incluindo a fotografia. Nossa, o artistas da música que mais me influenciaram são muitos, especialmente aqueles que quebraram padrões, dogmas e paradigmas como Bob Marley, Planet Hemp, Chico Science e Nação Zumbi, Lee “Scratch” Perry….. Já o impacto que a filosofia do reggae tem em minha vida com certeza é o espírito de paz, liberdade e espiritualidade.

Como produtora, como você vê a cena reggae no Brasil atualmente e no futuro?

A cena reggae no Brasil é imensa,  vários estilos desde o mais clássico até os que se ronovaram…vou citar alguns dos mais novos:  Natiruts, Ponto de Equilibrio, Digital Dubs, Mato Seco, Junior Dread, Dada Yute, Arcanjo Ras, Lei di Dai, Jimmy Luv, DubAtak, DJambi, Cidade Verde Sounds System, Zafenate Lab Ann Dub, Leões do Cerrado, Cavalaska Zion….

Acredita que o ritmo ficou estacionado num mercado de nicho em relação a outros gêneros que se repaginaram pra ficarem mais pop? Se sim, você vê um renascimento para o gênero, de modo que ele emplaque grandes festivais, grandes rádios e baladas dedicadas ao gênero como temos para MPB, funk, rock e sertanejo?

Acredito que na Jamaica seja diferente, mas no Brasil e no mundo o reggae se estagnou numa zona de conforto…a maioria dos eventos de reggae não apostam em nomes mais novos que ousam se renovar. Mas eu acredito e acho necessário um renascimento partindo até mesmo dos próprios artistas. É necessário maior cuidado com a identidade e linguagem visual dos álbuns, fotos, releases, sites, etc., e atualização das produções, com discos mais elaborados. Falta aos produtores dos festivais diversificarem mais na hora de fazerem o line-up, porque na maioria das vezes todas as bandas se parecem uma só. Sou a favor de deixar um pouco o conservadorismo e misturar mais bandas de reggae roots, com dancehall, dub, dubstep …. Enfim, bandas que fazem fusões de reggae com rap e outros. Assim renova o publico e os próprios artistas. Com isso naturalmente as rádios vão se interessar em tocar mais reggae, vão surgir mais baladas e a imagem do reggae se renovará junto ao público jovem e consequentemente aos investidores como acontece com o hiphop…

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Nos anos 90 você criou o festival “Superdemo Digital” que revelou Marcelo D2, Nação Zumbi, Skank, Planet Hemp, Raimundos, O Rappa, Gabriel O Pensador e virou selo da Sony Music. Pra você, quem são os artistas emergentes brasileiros que prometem uma revolução musical?

Em 94 criei o festival Superdemo no RJ que passou a acontecer nas principais capitais do Brasil. O festival ficou famoso por ajudar a revelar novos artistas emergentes e virou um sub-selo na Sony Music dentro do selo Chaos e o primeiro lançamento foi o álbum Usuário  do Planet Hemp / Marcelo D2… Mas acho complicado arriscar essa previsão ou fazer qualquer comparação hoje porque são épocas muito diferentes, outro contexto….E na minha opinião, revelações como Chico Science ou Planet Hemp são incomparáveis e únicos. Mas posso mencionar alguns artistas novos que estão fazendo a diferença e que eu chamaria pra tocar no meu próximo festival:  Beto Mejía, Cuscobayo, Rapadura, Bárbara Eugenia, Lia París, Claudia Dorei, Francisco El Hombre , BaianasSystem, Arandu Arakuaa, As Bahias e a Cozinha Mineira entre outros..

Atualmente, apesar de festivais de música indie como Lollapalooza, muitas pessoas sentem falta do TIM Festival/Free Jazz Festival que eram mais ecléticos na cena alternativa. Você tem projetos parecidos ou pretende criar algo do gênero para revelar novos talentos?

Eu tenho pensado muito em criar um novo festival pra expor os sons da nova cena, mas como estou muito envolvida como fotógrafa, será um festival que unirá música, fotografia e vídeo….. estou amadurecendo essa ideia.

Você se autofine como uma fotógrafa que ama retratar a urbanidade e a relação do indivíduo com o espaço. Com toda essa onda conservadora e intolerante que o país vive em contradição a revoluções pra discutir discriminação das drogas, diversidade sexual e igualdade de gênero, qual papel que a música e as artes em geral desempenham nesse momento histórico?

Não somente a urbanidade me encanta, mas também o rural, os contrastes e dualidades me inspiram. No mínimo as artes servem para emprestar a voz ao público para fazer chegar mais rápido a milhões de pessoas a informação e a conscientização política sobre todas essas questões.